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A colectânea "Pós modernidade, uma crítica á modernidade, uma crítica á sociedade" é composta por uma série de textos de ficção, narrados por várias personagens de diferentes sexos, idades e estratos sociais. São histórias soltas, muitas delas sem qualquer ligação entre si, que descrevem a visão de uma determinada pessoa sobre um tema ou situação. Todas as críticas são diferentes em termos de conteúdo e linguagem e, por isso, existem expressões e palavras que do ponto de vista estético e gramatical não estão correctas.

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Colocação na universidade

“(…) Não consegui colocação na universidade. Tentei entrar na primeira e na segunda fase mas não fiquei colocado. Concorri a poucos cursos, a poucas universidades. Tenho a certeza de que se tivesse preenchido mais opções certamente a esta hora estaria enfiado numa sala de aulas provavelmente num curso que não me identificasse.

Terminei o 12º ano com média de 14. 14 é uma boa media para alguns cursos mas não para as áreas que me despertam a atenção. Com esta media conseguiria entrar facilmente em Direito, História, Filosofia, Geografia, Letras, Antropologia, Arqueologia… mas nenhum destes cursos me interessa. Pretendo seguir Marketing, Comunicação ou Psicologia e com um 14 muito dificilmente conseguiria colocação numa universidade pública em Lisboa.

Poderia sempre optar por uma universidade privada mas os meus pais não têm condições financeiras para suportar propinas tão elevadas. Também poderia começar a trabalhar mas estudar e trabalhar nem sempre é fácil.

Este ano vou voltar ao 12º ano. Vou assistir às aulas de Português e História e voltar a fazer os exames nacionais. Pode ser que para o ano consiga entrar na universidade. Prefiro adiar a minha entrada na faculdade do que fazer um curso que não quero e com o qual não me identifico. (…)”

Pós modernidade, uma crítica á modernidade, uma crítica á sociedade

Outubro 2011

Viciada em compras

“(…) Tenho de esconder estes sacos em algum lado. Mas aonde!? No quarto o meu marido ia dar por isso. Na sala não há espaço. Na cozinha seria demasiado visível. No quarto das crianças também não me parece. Só se for na casa de banho…

Já estou farta de andar a esconder tudo o que compro. Uma pessoa agora não pode gastar dinheiro em roupa, malas, sapatos, cremes, jóias… que tem logo um monte de gente a vigiá-la e a criticá-la! O dinheiro fez-se para gastar, não para estar escondido debaixo do colchão ou guardado no banco. Assim como os produtos servem para serem comprados. Quero lá saber se gasto muito ou pouco dinheiro com isto ou aquilo. O dinheiro é meu, sou eu que o ganho e, por isso, faço com ele o que bem entendo e o que me apetece.

O meu marido quer que eu vá a um psicólogo. Diz que não é normal andar a gastar tanto dinheiro em coisas que não preciso. Sabe lá ele se não preciso daquilo que compro. Além disso, um vestido ou uns sapatos novos fazem sempre falta.

Os meus familiares e amigos dizem que tenho algum problema compulsivo, que sou viciada em compras. Problema têm eles que não me páram de chatear e de me vigiar (…)”

Pós modernidade, uma crítica á modernidade, uma crítica á sociedade

Outubro 2011

Bullying na sala de aula

“ (…) Vou dar aulas agora ao 8ºB. Sempre que penso que tenho de dar aulas a essa turma entro em pânico. Há 9 anos que sou professora e em 9 anos de carreira nunca tive uma turma tão turbulenta e complicada. São mal-educados, indisciplinados e, muitas vezes, agressivos. Têm entre 12 e 14 anos mas parecem uns autênticos selvagens. Atiram lixo para o chão, comem dentro da sala de aula, escrevem nas mesas, conversam uns com os outros constantemente…

Às vezes já não sei o que fazer. Há dias em que só me apetece sair da sala e nunca mais voltar a dar aulas àquela turma. Já tentei de tudo. Mudar os métodos de ensino e de avaliação, conversar com eles, chamar a atenção dos encarregados de educação… Mas nada resulta. Pelo contrário, continuam cada vez mais violentos e mal-educados. E não são só os rapazes, também as raparigas são indisciplinadas e agressivas. Não me obedecem, são respondonas, dizem palavrões e só não me batem porque não o permito.

Quando toca para o intervalo fico aliviada. É um alívio saber que hoje não terei de passar novamente pelo mesmo. Mas só de saber que amanhã, depois de amanhã terei de voltar a estar em contacto com estes “monstrinhos” fico nervosa e entro em pânico. (…)”

Pós modernidade, umacrítica á modernidade, umacrítica á sociedade

Outubro 2011

Não quero estudar

“(…) Não quero continuar a estudar. Não gosto de estudar. Nunca gostei. Não é agora que vou começar a gostar. Tenho 16 anos e estou no 9º ano. Sim, já chumbei duas vezes. Qual é o problema! Não podem ser todos inteligentes e tirar boas notas. Eu sou burro e prefiro ser burro e ter só “negas” do que ser o melhor aluno e ser tratado como “beto” ou “cromo”.

Não gosto de estudar. Quero é trabalhar. E ganhar “money” para comprar as minhas “cenas”. “Tipo”, já tenho idade para trabalhar. Mas os meus “cotas” não deixam. Dizem que sou um miúdo e que tenho é de estudar e ir para a universidade. Mas eu não quero ir para a universidade. Quero é arranjar um bom emprego e ter dinheiro para as minhas “cenas”.

Não “curto” nada estar na escola. Eu quero é “curtir” a vida e preciso de “money” para isso. Não tenho paciência para aturar “stores” chatos, “pitas” armadas em espertas e parvalhões com “a mania”. Mas o pior de tudo é mesmo os testes e os trabalhos. Não percebo nada e não “gramo” nada estudar.

“Tipo”, eu quero é trabalhar. Estou farto de estudar. (…)”

Pós modernidade, uma crítica á modernidade, uma crítica á sociedade

Outubro 2011

Vegetarianismo

“(…) Não como carne. Não como peixe. Não como ovos. Não como lacticínios. Sou vegetariana. Há cinco anos que não consumo nada de origem animal, apenas legumes, soja, tofu e pouco mais. Não, não passo fome, como a maioria das pessoas pensam. Não, não sou esquelética. Não, não estou a fazer dieta. Não, não quero emagrecer. Apenas quero ter uma alimentação mais saudável e um estilo de vida mais sustentável, mais amigo do ambiente.

A maioria dos meus amigos pensa que sou parva. A maioria dos meus familiares pensa que enlouqueci. A maioria das pessoas que acaba de me conhecer pensa que sou muito “fixe”.

Tenho 30 anos e adoptei este estilo de vida aos 25. Antes só consumia alimentos ricos em calorias: carnes vermelhas, fritos, doces, salgados… Perguntam-me constantemente se não tenho saudades de um bom bitoque ou de um cheeseburguer. Se não tenho saudades de um gelado do McDonalds ou de uma pizza do PizzaHut. Pode parecer estranho mas não. Pelo contrário, sempre que entro em algum restaurante de fast food fico logo enojada ou enjoada com o cheiro a gordura ou com a forma como as pessoas devoram os alimentos. Consomem-nos tão rápido que nem sequer têm tempo para sentir o paladar na boca.

Ser vegetariano não é uma moda, que se adopta e se deixa quando bem se apetece. É um estilo de vida, uma forma de ser. (…)”

Pós modernidade, uma crítica á modernidade, uma crítica á sociedade

Outubro 2011